No Tocantins, a presença das comunidades quilombolas é um dos pilares da formação histórica e cultural do estado. Atualmente, existem cerca de 44 comunidades certificadas pela Fundação Cultural Palmares, embora o movimento quilombola local estime um número maior de agrupamentos em diferentes estágios de reconhecimento.

Aqui está um panorama sobre quem são e como vivem:
1. Origem e Identidade
Diferente de uma “raça” no sentido biológico, o termo correto é etnia ou grupo remanescente de quilombo. No Tocantins, essas comunidades formaram-se a partir de:
- Processos de resistência: Negros escravizados que fugiam de garimpos (especialmente no ciclo do ouro em Natividade e Arraias) e de fazendas de gado.
- Isolamento geográfico: Muitos grupos se estabeleceram em regiões de difícil acesso nas serras e vãos, o que permitiu a preservação de tradições seculares.
2. Principais Comunidades
As comunidades estão espalhadas por todas as regiões do estado, com destaque para o Sudeste e o Norte (Bico do Papagaio):
- Kalunga do Mimoso (Arraias): Uma das mais tradicionais, ligada ao território Kalunga que se estende até Goiás.
- Mumbuca (Mateiros/Jalapão): Famosa mundialmente pelo artesanato em Capim Dourado, que se tornou o símbolo do Tocantins.
- Cocalinho (Santa Fé do Araguaia): Representante da resistência na região norte.
- Laginha e Redenção (Natividade): Comunidades que mantêm fortíssima ligação com festejos religiosos e a culinária tradicional (como o biscoito Amor-Perfeito).
3. Modo de Vida e Economia
A sobrevivência e a cultura quilombola no Tocantins estão intrinsecamente ligadas à terra e aos recursos naturais:
- Agricultura de Subsistência: Cultivo de mandioca, milho, feijão e arroz, geralmente utilizando o sistema de roças comunitárias.
- Extrativismo: Coleta de frutos nativos do Cerrado, como o pequi, buriti e coco babaçu. O extrativismo do Capim Dourado no Jalapão é uma fonte de renda vital para as mulheres artesãs.
- Religiosidade e Cultura: A preservação de danças como a Sússia (ritmo frenético acompanhado por tambores) e as festas de Reis e do Divino Espírito Santo são marcas registradas da identidade desses grupos.

4. Desafios Atuais
Apesar da riqueza cultural, as comunidades enfrentam obstáculos estruturais:
- Regularização Fundiária: A titulação definitiva das terras ainda é um processo lento e gera conflitos com o agronegócio e grileiros.
- Infraestrutura: Muitas comunidades, por estarem em locais isolados, ainda lutam por melhor acesso a saúde, educação básica adaptada à realidade quilombola e saneamento.
- Sustentabilidade: O desafio de conciliar o turismo (especialmente no Jalapão) com a preservação do modo de vida tradicional e do meio ambiente.

O quilombo Barra da Aroeira, localizado no município de Santa Tereza do Tocantins, é uma das comunidades mais emblemáticas do estado, especialmente por sua história de fundação e pela luta pela preservação do território no coração do Jalapão.

Aqui estão os pontos centrais sobre essa comunidade:
1. Origem e o Patriarca
A história da Barra da Aroeira está ligada à figura de Félix José Rodrigues, um ex-escravizado que, segundo a tradição oral e registros históricos, recebeu as terras como uma doação ou “recompensa” por serviços prestados (algumas versões citam sua participação na Guerra do Paraguai).
Diferente de outros quilombos que nasceram de fugas para locais isolados, a Barra da Aroeira consolidou-se em torno de uma herança familiar e de um documento de posse antigo, o que torna a identidade da comunidade muito ligada à genealogia da família Rodrigues.

2. Modo de Vida e Tradições
A vida na Barra da Aroeira é regida pelo ciclo do Cerrado e pela vida comunitária:
- Agricultura e Criação: A base econômica é a agricultura familiar, com o cultivo de mandioca (para produção de farinha), feijão e milho. A criação de gado solto e de pequenos animais também é comum.
- A Dança da Sússia: O quilombo é um dos principais guardiões da Sússia no Tocantins. É uma dança de roda com movimentos rápidos de pés e quadris, ao som de tambores feitos de troncos de árvores e couro (as saca-rabas). É uma expressão de alegria e resistência presente em todas as festividades.
- Medicina Tradicional: O conhecimento sobre raízes e ervas do Cerrado é passado entre as gerações, sendo um recurso vital para o cuidado da saúde na região.
3. O Capim Dourado e o Artesanato
Embora o povoado de Mumbuca seja o mais famoso pelo artesanato, a Barra da Aroeira também possui artesãos habilidosos que utilizam o Capim Dourado e a fibra do Buriti.
- A colheita é feita de forma sustentável entre setembro e outubro.
- O artesanato é, hoje, uma das principais formas de empoderamento das mulheres da comunidade, gerando renda e visibilidade externa.
4. A Luta pelo Território
Este é o ponto mais sensível e urgente para a Barra da Aroeira. O território da comunidade sofreu pressões externas ao longo das décadas:
- Invasões e Grilagem: Por ser uma área plana e fértil, o território foi alvo de fazendeiros e empresas agrícolas.
- Demarcação: O processo de titulação pelo INCRA é complexo e gerou décadas de disputas judiciais. A comunidade luta para que os limites históricos estabelecidos pelo patriarca Félix José sejam respeitados.
- Parque Estadual do Jalapão: A criação de áreas de preservação ambiental ao redor também impôs limites ao uso tradicional da terra, exigindo que a comunidade se adapte a novas regras de manejo sustentável.
Curiosidade: A “Festa do Divino”
A religiosidade é um pilar forte. A Festa do Divino Espírito Santo na Barra da Aroeira atrai parentes que moram longe e visitantes. É um momento de união onde a fé católica se mistura com as raízes africanas, resultando em celebrações que duram dias com fartura de comida e música.






